A Oprahmania e os perigos da política espetáculo


Artigo de Adriano Campos.


Líder de audiências televisivas, dona de uma fortuna colossal e representante emérita do novo capitalismo filantrópico, Oprah foi considerada a décima segunda mulher mais poderosa do mundo em 2015 pela revista Forbes. Nos últimos anos, os seus projetos de intervenção social — promoção à escolarização de jovens mulheres africanas, luta contra a sida, apoio à habitação nos bairros pobres dos EUA — mereceram rasgados elogios e somaram milhões de dólares em apoios privados. Num cenário de incerteza económica e de avanço das políticas neoliberais, resultando num crescimento da precariedade laboral, da pobreza e do endividamento pessoal, a ação de Oprah cativou a atenção de multidões e influenciou políticas locais.

Nessa campanha constante e mobilizadora, a consagração da dádiva coletiva e a prática filantrópica de Oprah são acompanhadas, amiúde, pela exaltação constante da sua própria história de vida: uma mulher negra e pobre, nascida no sul dos EUA que conseguiu vencer na vida pelo seu próprio esforço. Este elemento não é um pormenor na poderosa máquina midiática construída pela apresentadora. O sucesso e o carisma de Oprah reforçam a sua mensagem de que «tudo é possível». A sua história de vida inspira um ideal de mobilidade social para quem estiver disposto a arriscar e empreender, pois, como diz a própria Oprah, «as barreiras e limitações que nos impedem de viver a nossa Utopia são aquelas criadas pela nossa própria mente e que incorporamos à nossa realidade».

O facto de Oprah ser negra e mulher num meio dominado por homens e brancos reforça o seu sucesso como exemplo a ser emulado. Em média, uma família de brancos nos EUA acumula um rendimento anual 16 vezes superior ao de uma família de negros. Essa desigualdade repercute-se na enorme disparidade no acesso à escolarização, direito à habitação, emprego, justiça ou participação política. Para a esmagadora maioria de mulheres negras norte-americanas que enfrenta uma taxa de desemprego 40% superior à das mulheres brancas, o exemplo de Oprah pode ser inspirador e um motivo de esperança acrescida num futuro melhor. A questão é que, como bem demonstram as estatísticas, as sociedades são dominadas por desigualdades sociais e raciais. O avanço dos direitos da população negra contra o regime segregacionista dos EUA na segunda metade do século XX não foi obra da genialidade individual ou do rasgo pessoal de um só líder ou protagonista. Oprah jamais teria lugar na televisão norte-americana caso tivesse nascido 40 anos mais cedo, apesar de toda a sua inteligência e capacidade pessoal. Foram necessárias décadas de luta coletiva, mobilizações de massa e enfrentamentos muitas das vezes violentos para que o regime racial perdesse alguma da sua capacidade de legitimação e opressão.

Ainda assim, o facto é que a mensagem deste ícone da comunicação moderna pode ser ouvida em muitas partes do mundo, arrastando uma audiência com interesse genuíno no seu conteúdo. Mas qual é, afinal, essa mensagem? Um exemplo ilustrativo pode ser encontrado na revista The Oprah Magazine, onde frequentemente são apresentadas estratégias específicas para mulheres que queiram mitigar os seus problemas pessoais e profissionais. O seu emprego não lhe permite dormir as horas suficientes? Tente «alterar a alimentação para adaptar o seu metabolismo». É a única a lavar a loiça na família? Veja o lado positivo, «a repetição e a abstração ajudam o seu cérebro a relaxar». A sua colega de trabalho está constantemente a criticar o patrão, pondo em causa o trabalho de equipa? Não perca mais tempo, «recuse-se a ouvir e tente isolá-la. Ela perderá as energias quando estiver afastada do grupo».

O louvor extremo que Oprah dedica à emancipação individual tende assim a deixar pouca margem para questionamentos de ordem sistémica. O foco no indivíduo e na sua capacidade de adaptação resulta na reprodução do que alguns autores chamam de «sujeito neoliberal»: a imagem do ser submetido às relações do mercado, cujo sucesso depende apenas da abnegação do trabalho e do génio pessoal, relegando para último plano as condições estruturais da desigualdade social, como os salários, as políticas públicas e as formas de organização coletiva. Não só a imagem de Oprah serve como ícone a este discurso, como transmite uma conduta social a ser seguida por quem quer ascender socialmente.

Em 2010, não por acaso, Oprah Winfrey juntou-se a Mark Zuckerberg e ao Governador republicano de Nova Jersey para promover um modelo inovador nas escolas públicas de Newark. O plano, generosamente financiado em 100 milhões de dólares por Zuckerberg, previa a introdução de métodos empresariais no ensino, desde uma avaliação agressiva dos professores, a cooptação de gestores externos sem ligação à comunidade e a hostilização dos sindicatos. Cinco anos depois, o projeto resultou num rotundo fracasso, com resultados dececionantes e uma desorganização geral da rede pública de ensino da cidade. Este exemplo demonstra o perigo de submeter a esfera pública ao capital privado, dando-lhe, ainda para mais, um poder de gestão e decisão na condução dos serviços que devem estar à disposição de todos.

Os perigos da política espetáculo

A sugestão de Oprah vir a apresentar-se como adversária presidencial de Donald Trump poderá constituir uma surpresa para alguns, mas esta mera insinuação diz-nos mais do que o arrufo midiático à volta da sua intervenção na cerimónia dos globos de ouro. O empobrecimento da experiência política, com a atomização e isolamento das vidas precarizadas da maioria da população, eleva o consumo de imagens e histórias ficcionadas dos seus protagonistas a um novo patamar das escolhas eleitorais. O vedetismo veio para ficar. Nas últimas eleições municipais em São Paulo, o primeiro e o terceiro candidato mais votados eram reconhecidos pela a sua atuação como apresentadores de televisão, Beppe Grillo lidera as sondagens em Itália enquanto os Ciudadanos apostam forte na cooptação de candidatos famosos em Espanha. Novidade? Não é, com certeza, a primeira vaga de vedetismo a que assistimos, mas é a mais forte num contexto de desordem acelerada do regime de alternância.

A eleição de Donald Trump nos EUA e, em menor medida, de Macron em França, revelam sinais de uma personalização galopante como o elemento central de uma política espetáculo que se vai espalhando. No caso de Trump e Macron, a afirmação dos projetos estabeleceu-se sobre a desordem dos seus campos políticos, o Partido Republicano nos EUA e o Partido Socialista Francês, concedendo a ambos um poder acrescido em sistemas já de si muito personalizados no que toca ao poder presidencial. A aposta hiperbólica na forma como representam o seu eleitorado e se apropriam do seu imaginário exigem uma consonância com projeção pública da sua própria imagem: o protecionismo xenófobo de Trump assegurado pelo seu percurso de self-made man anti-sistema e o elogio europeísta de Macron escorado na sua imagem de renovador destemido.É, portanto, de um exagero que falamos: no poder, há mais narrativa do que ação; no povo, mais espectadores do que atores da mudança.

Este truncamento entre política e show business que abre a porta aos mais inadvertidos aventureiros coloca também, a breve trecho, questões à atuação política à esquerda. Não se trata de escamotear a necessidade de exposição dos protagonistas políticos numa dimensão nacional ou renegar a importância dos apoios de pessoas que pelo seu trabalho se tornam reconhecidas e, por isso, confiáveis.Todos sabemos que a exposição televisiva e midiática é como a geleia no pão, quanto menos temos, mais nos esforçamos por espalhar. O problema estará antes no grau com que apostamos na narrativa e na imagem sem que a isso corresponda uma organização social traduzida em práticas de mobilização e, acima de tudo, na forma como nos representamos nessas práticas.

A esquerda ganha em pessoalizar a história dos seus representantes, mostrando as suas origens, as suas relações pessoais, o seu trabalho, o reconhecimento perante os seus sem ficções de maior (o que não está ao alcance dos novos aventureiros). E a esquerda perde quando se funde com o centro e a direita num pretensa disposição da política como função de uns poucos na sociedade, como vemos amiúde nas reportagens sobre “as mulheres e a política”, “os jovens e a política”, “os mais velhos e a política”, onde a prática de transformação do mundo é encapsulada exclusivamente naqueles e naquelas que exercem cargos eletivos. Sem o querer, perdemos a distinção e com ela, quase tudo.

De resto, a política espetáculo parece ter vindo para ficar, com os seus perigos e a sua estranha forma de representação.


Artigo de Adriano Campos.