O ativismo político das trabalhadoras russas em 1917: Que tipo de patriarcado enfrentaram as mulheres?

Artigo de Anne Bobroff-Hajal


Este artigo baseia-se na investigação de Anne Bobroff-Hajal nos arquivos soviéticos e norte-americanos para o livro Working Women in Russia Under the Hunger Tsars: Political Activism and Daily Life (1994). A investigação centrou-se nas fábricas da Região Industrial Central de Moscovo, escolhida pelo facto de tantas mulheres – casadas incluídas –  estarem empregadas nas suas enormes fábricas têxteis e outras. O leitor que deseje obter mais detalhes sobre o ativismo de mulheres e homens em 1917, as suas vidas e rituais de socialização, encontrará uma descrição mais completa no livro (e na dissertação de doutoramento em que este se baseia).

Um dos lugares comuns da Revolução Russa de fevereiro de 1917 é que esta começou com ações de rua de mulheres trabalhadoras que exigiam comida para as suas famílias famintas. O que é menos conhecido é que este ativismo foi generalizado e ininterrupto ao longo de 1917 nas fábricas e nas cidades da Região Industrial Central (RIC) à volta de Moscovo e que assumiu formas particulares. A RIC ficou em polvorosa todo o ano, com trabalhadoras a atacar os carros dos açambarcadores, procurando os armazéns dos especuladores e exigindo de forma tenaz às autoridades locais comida para alimentar os seus – como era descrito num poema num jornal – “Bebés famintos, crianças que mal sobrevivem / Bracinhos, perninhas como folhas de erva” (Gazeta-Kopeika, 1 de setembro de 1917).

As mulheres também participaram nas manifestações e empunharam bandeiras vermelhas nas de Moscovo, exigindo maiores subsídios para as famílias dos soldados. Um número muito menor de mulheres trabalhadoras lutaram nas ruas da Moscovo pró-bolchevique durante a Revolução de Novembro, muitas vezes a bater terreno, a prestar os primeiros-socorros e a abastecer os homens que lutavam nas barricadas, outras vezes manejando as armas dos companheiros caídos. Só um pequeno número de mulheres da classe trabalhadora permaneceu politicamente ativa nos anos posteriores a 1917.

Em resumo, as mulheres trabalhadoras russas de 1917 eram militantes, corajosas e estrategas, dentro das limitações do seu tempo e lugar. Todavia, como disse uma mulher nos anos vinte, “a nossa posição em muitos aspetos continua a ser difícil e indesejável. A cozinha, as crianças, a roupa para lavar, o trabalho na fábrica – este é o nosso mundo, do qual poucas saíram rumo à liberdade”. Que barreiras tiveram de enfrentar as mulheres trabalhadoras – ou que recursos lhes faltaram – para darem o salto rumo à liberdade?

Fundamentos materiais do ativismo: o dia a dia das mulheres antes de 1917

Marx observou que quando os camponeses, oriundos de aldeias rurais dispersas, se convertem em operários e se concentram nas fábricas são mais capazes de construir uma organização efetiva e contínua em defesa dos seus próprios interesses. As crenças políticas por si só não são suficientes para uma ação forte; a proximidade e outras condições materiais básicas também devem estar presentes. Em concreto, viver e trabalhar juntos e em grandes contingentes facilita o contacto e, portanto, abre mais possibilidades às organizações em desenvolvimento. O capitalismo, concluiu Marx, pré-organiza os trabalhadores para o socialismo.

Em todo o mundo, as fábricas têxteis de algodão foram o motor da enorme acumulação de capital necessária para a industrialização. Como era comum em muitos países que passavam pela fase inicial de industrialização, a maioria das mulheres russas que trabalhavam nas fábricas da Região Industrial Central (RIC) à volta de Moscovo eram trabalhadoras têxteis. Outras mulheres russas trabalhavam no tabaco, no chá e processamento de alimentos, na borracha e produtos químicos.

Muitos dos operários ativistas russos de 1917 não estavam muito longe das suas aldeias rurais. Tal como nos Estados Unidos (a partir da década de 1820), não havia na Rússia (no final do século XIX) um grupo de trabalhadores preexistente para trabalhar nas novas fábricas têxteis. Em vez disso, as camponesas russas dos campos circundantes eram, como o haviam sido as filhas dos agricultores norte-americanos, atraídas para as fábricas e, frequentemente, alojadas em dormitórios concebidos especificamente para elas.

Na Rússia, os dormitórios foram construídos pelos proprietários das fábricas. Albergavam famílias inteiras que trabalhavam nas fábricas das proximidades, com duas ou três famílias apinhadas em cada quarto. Os dormitórios incluíam cozinhas comunitárias e lavandarias em grandes espaços que, mais tarde, durante as revoluções de 1905 e 1917, mostraram ser os locais ideais para acolher reuniões políticas de massas. No entanto, embora as mulheres vivessem e trabalhassem de forma comunitária, como veremos mais adiante, o desenvolvimento da sua organização seria curto-circuitado.

John Foster Fraser, Russia of Today, 1916. Imagem rara do final de um dia de trabalho numa fábrica têxtil da RIC. Crianças (entre as mulheres, primeiro plano) vieram ter com as suas mães. Os homens saem num grupo separado.

As condições de vida e de trabalho dos trabalhadores russos, no início do século XX, eram extremamente difíceis, com salários baixos, um horário de trabalho incrivelmente longo, más e perigosas condições de trabalho e ausência de proteção social. Porque as mulheres trabalhavam muitas horas na fábrica durante a sua vida de casadas – frequentemente até ao nascimento de cada bebé -, a maioria dos bebés e crianças eram cuidados por raparigas muito jovens chamadas n’ianki.

Recém-construído dormitório da fábrica de seda Tsindel em Moscovo. Mesmo neste modelo de dormitório, cada janela representa um quarto onde viviam duas ou três famílias.

Dado que os filhos e as filhas dos próprios trabalhadores normalmente começavam a trabalhar na fábrica entre os 11 e os 17 anos, as únicas raparigas disponíveis para cuidar dos bebés eram crianças com 6 ou 7 anos. Consequentemente, aconteciam tragédias – como quando uma criança se afogou num balde com água ou caiu numa latrina.

Lenine fala na cozinha/sala de jantar da moscovita fábrica Trekhgorka. Homens e mulheres compõem o auditório

Organização da vida quotidiana das trabalhadoras e dos trabalhadores antes de 1917

Nas famílias trabalhadoras, as mulheres eram responsáveis por cuidar das crianças. As mulheres chegavam a casa depois do trabalho e começavam o seu segundo trabalho: o doméstico e o das crianças. Cada mulher vivia uma vida em que as suas necessidades se confundiam com as necessidades da sua família nuclear. Como as trabalhadoras não eram propriamente alfabetizadas – e antes da rádio, televisão ou internet -, a sua socialização era quase inteiramente feita por meio de um conjunto de rituais festivos, da leitura da sina, da leitura de poemas em grupo, de danças de fazer a corte, de rituais matrimoniais, de provérbios, de canções de embalar e de canções de mulheres casadas. Todas estas atividades enfatizavam que o compromisso de cada mulher casada deve ser o seu marido e os seus filhos, enfraquecendo os laços com as mulheres ao lado das quais trabalharam em casa e na fábrica.

Um exemplo de como isto se traduzia na vida quotidiana é a forma como as mulheres usavam a cozinha comunitária à noite. “Aqui, junto ao fogão, os habitantes do dormitório costumam reunir-se e ocupar-se das suas próprias tarefas: as mulheres cuidam das crianças, lavam a roupa, cozinham, vigiam mutuamente os piolhos, coscuvilham, etc.” (V. Ermilov, Byt Rabochei Kazarmy, 1930, p. 5). Enquanto tagarelavam e catavam piolhos umas às outras (e aos seus filhos), cada mulher cozinhava para a sua família. No entanto, a Rússia tinha uma forte tradição de pensões-cooperativas, razão pela qual os homens solteiros que trabalhavam juntos compravam e preparavam os alimentos e comiam juntos. As mulheres faziam cada uma destas tarefas para a sua própria família, separadamente, dentro do espaço comunitário, pelo que levavam a comida cozinhada para o seu quarto, apesar de este trabalho provavelmente poder ser feito de maneira mais eficiente e menos trabalhosa, como nas pensões-cooperativas. As mulheres também lavavam a roupa umas ao lado das outras, nas lavandarias públicas ou noutras instalações, mas, de novo, cada uma fazia-o para a sua família. A socialização das mulheres – e/ou as subjacentes necessidades reais das crianças – inibia as mães de partilhar as tarefas domésticas, mesmo quando viviam em comunidade.

Lapitskaia, Trekhgorka, Moscovo, 1935, e Moskva vchera i segodnia, Moscovo, 1978.
Os quartos do dormitório eram partilhados por duas ou três famílias, com a cama dos pais separada por cortinas. Os bebés eram colocados em berços sobre a cama dos pais. As crianças mais velhas dormiam no chão.

Em contraste, uma característica marcante da cultura da classe trabalhadora masculina russa foi a sua grande ênfase naquilo a que os antropólogos chamam vinculação masculina. Os líderes dos trabalhadores russos chamavam a este fenómeno tsekhovshchina (fraternidade de fábrica). As minhas investigações nos arquivos e jornais mostram que, das atividades de lazer diárias ao posto de trabalho e aos rituais pós-laborais, desportos e canções, os homens foram socializados para se unirem estreitamente com os trabalhadores (masculinos) da sua própria fábrica ou setor da fábrica (por exemplo, a tecelagem, a impressão, a tinturaria de uma fábrica têxtil). As descrições dos comportamentos públicos de vinculação dos trabalhadores masculinos eram constantes nos jornais da classe trabalhadora russa do princípio do século XIX. Lotarias intermináveis, jogos de cartas e outros, álcool, rixas, futebol, grupos corais e proezas públicas cimentavam os vínculos primordiais de um homem com os outros homens da sua própria fábrica ou secção face aos homens de outras fábricas ou secções.

A explicação mais extrema deste contraste de género eram os bailes guliania (onde, frequentemente, havia corte) e os rituais de casamento, nos quais as mulheres e os homens nubentes promulgavam metaforicamente a proibição de as mulheres se entreajudarem quando uma delas fosse batida pelo seu marido. Isto dava lugar a situações (descritas nos jornais da classe trabalhadora e noutros lugares) que, muitas vezes, ocorriam em público quando os trabalhadores recebiam o pagamento da fábrica: as trabalhadoras chamavam os seus maridos para irem com as suas famílias para casa em vez de saírem com os amigos e, não raras vezes, beberem todo o seu salário. O marido, cercado por uma multidão, que incluía o seu grupo de fraternidade masculina, rejeitava as súplicas da esposa. Se a situação se agudizasse, podia chegar a bater-lhe sem que as mulheres da multidão a defendessem. Tal como um jornal operário descrevia: «A infeliz mulher virou-se para ir para casa. Muitos (de entre a multidão) expressaram compaixão por ela, mas ninguém se aproximou dela e ninguém lhe perguntou nada» (Kineshemets, 1 de março, 1913). Como uma outra trabalhadora disse, muito mais tarde, a um etnógrafo, se uma esposa se queixasse de ser espancada, eles diziam-lhe: «Tu ouviste, quando te casaste, aquilo que foi lido na igreja: “uma esposa teme o seu marido. Isso significa que tens de aguentar!”» (Gosudarstvennyi Literaturnyi Musei, p. 263). Outra mulher contou a um etnógrafo vários anos mais tarde: «O meu marido intimidava-me. Os homens eram torturadores, podiam inclusivamente espancar-te. O que ias fazer? Geralmente, calavas-te – tínhamos vergonha de falar disto. [Os homens] faziam de tudo. Espancavam-te sem piedade e eram assim as coisas. E onde te ias queijar?» (GLM, p. 263).

Toda a força vital de cada mulher, toda a energia emocional das suas muitas e tristes desilusões e humilhações tinha como centro positivo o cuidado dos seus filhos, cujo pai era, muitas vezes, a origem de tantos dos seus problemas. Em resumo, a socialização diária e as condições de vida preparam as mulheres para serem estrategas e absolutamente implacáveis nas suas buscas por comida, cada uma para a sua família.

Pequeno grupo de homens que cantam enquanto vagueiam pelas ruas depois do trabalho.
Coleção especial da Biblioteca Pública de Nova Iorque.

O ativismo alimentar das mulheres russas em 1917

As condições pioraram ainda mais durante e Primeira Guerra Mundial. As famílias dos homens recrutados pelo exército czarista recebiam subsídios insuficientes. Os alimentos tornaram-se escassos, em parte porque o sistema ferroviário russo não era adequado para ambos os transportes, militar e civil; além disso, as políticas do governo czarista durante a Guerra deram lugar à especulação e ao açambarcamento em grande escala por parte dos comerciantes. Depois da Revolução, em fevereiro de 1917, o Governo Provisório tratou de remediar a situação através da criação de comités locais – de cidade e província – de aprovisionamento; tiveram pouco êxito.

A comida disponível era frequentemente de má qualidade, potencialmente fatal para as crianças. «O leite de Moscovo é… uma complexa combinação química que tem muito pouco leite e muita sujidade» (Gazeta-Kopeika, 20 de agosto de 1917). Um jornal provincial dizia: «As doenças agudas do estômago ocorrem unicamente por causa da má qualidade dos alimentos. O estômago de uma criança não pode tolerar leite azedo ou misturas de água e pão preto e meio branco, por isso as crianças estão a morrer como tordos. No novo cemitério [de Kostroma], os pequenos montículos de jovens vítimas brotam da terra fresca» (Povolzhskii vestnik, 4 de julho de 1917).

Começaram a aparecer grandes filas (chamadas khvosty) à porta das lojas de comida. A procura de alimentos por parte da cada mulher tornou-se muito organizada. Quando começavam a formar-se filas, as mulheres enviavam os seus filhos para lá, enquanto elas estavam a trabalhar na fábrica. Quando as khvosty começavam a formar-se antes do amanhecer, as mulheres assumiam a tarefa, ficando nas filas sob um frio glaciar durante a madrugada. Quando as lojas começavam a ficar sem alimentos e as pessoas que estavam na fila tinham de ir fazê-la para outro lado e, depois, para outro lado ainda, «entre pessoas simples, mesmo antes de as mulheres saltarem da cama para fora já estão a discutir e a planear as lojas de pão que irão “atacar”» (Gazeta-Kopeika, 14 de janeiro de 1917).

À medida que a escassez de alimentos aumentava durante 1917, as mulheres tinham de ir para as filas antes de as lojas abrirem.
Oktiabr’ v Zamoskvoreche, Moscovo.

As mulheres permaneciam de pé ou sentavam-se juntas durante horas. Um repórter descreveu uma khvost que começava a formar-se à 1 da madrugada de uma noite fria de Moscovo:

«Nas ruas, as figuras das mulheres começam a emergir impercetivelmente, enroladas em panos reúnem-se em grupos pequenos em determinados sítios. Perto de alguns grupos há fogueiras acesas. Até agora as noites têm sido diabolicamente frias… Algumas, encostadas à parede, dormitam, tratando de voltar ao seu sonho interrompido; outras, acordando com o frio, trocam algumas palavras geladas, ficam em silêncio por um tempo, voltam a soltar uma frase e, entre o crepitar dos ramos secos a arder, ouve-se o som das suas conversas… As minhas vizinhas conversavam calmamente sobre assuntos domésticos (Vlast ‘naroda, 16 de maio de 1917).

Mas a conversa pacífica terminava quando as mulheres não conseguiam comida e, no entanto, viam outras a ocultá-la ou a carregá-la às escondidas. As mulheres eram tremendamente intrépidas nos seus ataques a quem quer que fosse que retivesse os alimentos de que os seus filhos necessitavam: donos de lojas (e as mulheres de classe alta a quem, muitas vezes, estes guardavam comida), especuladores, oficiais e soldados famintos que tentavam passar-lhes à frente. Um jornal referiu-se a estas mulheres como “as amazonas de Moscovo”. Os jornais da classe trabalhadora de 1917 descreveram as ações de numerosas mulheres trabalhadoras contra comerciantes e comités de aprovisionamento de cidades ou distritos.

Em meados de julho, por exemplo, nos arredores das fábricas têxtil de Yaroslavl, a farinha e o pão que se vendiam estavam tão cheios de farelo que causavam dores de barriga severas às crianças. Uma multidão de mulheres enfurecidas reuniu-se na loja de alimentos da cidade e «começaram a bater com os pés… e ameaçaram de esquartejar todos os diretores da loja; arrombaram a porta e começaram a arrastar pelos braços todos os membros da comissão de aprovisionamento». No dia seguinte, a situação não tinha melhorado, de modo que as mulheres se dirigiram ao comité de abastecimento do distrito. «As mulheres fizeram um escândalo e exigiram que o presidente do comité de aprovisionamento saísse e falasse com elas. Comportaram-se de forma ameaçadora com os empregados do escritório. Foi para lá enviada uma unidade de polícia. O trabalho do comité terminou [por aquele dia]». Quando a farinha má voltou a ser vendida na semana seguinte, as mulheres foram vistas «ora no comité de abastecimento, ora nas lojas, indignadas com a situação alimentar e apelando à violência contra os que estavam reunidos no comité» (Golos, 15, 18 e 19 de julho e 4 de agosto de 1917).

Na fábrica isolada de Norkoe, que não tinha um comité de aprovisionamento próprio, as mulheres famintas faziam repetidas vezes viagens de barco noturnas, rio abaixo, para Yaroslavl. Numa destas viagens, «oitenta e oito dos que morriam de fome», tanto mulheres como homens, partiram pela manhã. No barco a vapor, o grupo encontrou casualmente um membro do comité de aprovisionamento de Yaroslavl, F. M. Plitin, e, abeirando-se dele, começou a exigir a entrega imediata de pão. Plitin, aturdido com o assalto das mulheres, tentou explicar que não havia farinha suficiente. Mas as mulheres insistiram no pedido de pão. À chegada do barco a vapor a Yaroslavl, as oitenta e oito pessoas foram com Plitin ao comité de abastecimento. Ali fizeram uma declaração sobre a sua fome. Muitas mulheres gritaram: «Não temos sequer uma côdea de pão em casa, os nossos filhos morrem de fome». Deu-se aos presentes pão cozido, que repartiram entre eles. A imagem resultante era assustadora! (Golos, 17 de setembro de 1917).

A farinha estava num moinho próximo e foi levada de barco para Norskoe. No entanto, uma semana depois, quando Norskoe ficou novamente sem comida, os trabalhadores regressaram de barco a Yaroslavl e com dificuldade conseguiu-se impedir que Plitin e outro oficial fossem lançados borda fora.

As mulheres começaram a exigir registos nos armazéns e nas casas de comércio e a outros cidadãos ricos e suspeitos de açambarcamento. Em Pozhekhon’e, por exemplo, o “proletariado de saias” estava convencido de que um ajudante que trabalhava na loja da cidade armazenava secretamente mercadorias para si e fez uma inspeção à casa [do ajudante] sem a permissão das autoridades; em Moscovo, uma multidão de mulheres exigiu a inspeção a um apartamento privado, onde se descobriram e confiscaram bens (Golos, 17 de agosto de 1917, Vlast ‘naroda, Sept. 7, 1917).

Os soldados unem-se às lutas por comida em Yaroslavl e Kostroma

Os soldados das guarnições locais, cujo fornecimento de alimentos estava debilitado, apareceram nas filas de pão do verão de 1917 em busca de comida. Rapidamente se uniram às mulheres em protestos por comida ad hoc. Quando as mulheres começaram a exigir inspeções generalizadas, os soldados apoiavam-nas com armas, mesmo que muitas vezes fossem expulsos por unidades militares de elite. (Golos, 10 de setembro de 1917). No entanto, no final do verão e do outono, pelo menos em Yaroslavl e Katrima, os soldados passaram da sua aliança com as mulheres a uma aliança muito mais poderosa, desta vez com organizações de trabalhadores. O objetivo do comité conjunto soldado/fábrica era levar a cabo registos sistemáticos, edifício a edifício por toda a cidade, confiscando todas as reservas importantes de alimentos.

Em Yaroslavl, em maio, o comité de fábrica da gigantesca fábrica têxtil de Laroslaskaia Bol’shaia prendeu o seu diretor por este ter aumentado astronomicamente os preços dos alimentos na loja da sua fábrica. Em julho, depois dos tumultos populares por causa das altas percentagens de farelo na farinha que se vendia na cidade, os representantes do comité de fábrica reuniram-se com delegados de todas as outras fábricas da cidade para discutir as medidas a tomar. Nenhuma trabalhadora parece ter estado envolvida nesta organização do comité de fábrica, apesar de 6500 mulheres trabalharem lá juntamente com 5000 homens. Em resumo, o comité da fábrica estava envolvido em várias iniciativas organizadas relacionadas com o problema da escassez de alimentos, inclusivamente enquanto o ativismo alimentar mais had hoc das mulheres se desenvolvia nas ruas, para lá dos portões da fábrica.

Os registos na cidade de Yaroslavl começaram em setembro. O trabalho parou na Laroslaskaia Bol’shaia e os trabalhadores juntaram-se na escola da fábrica para se reunirem com representantes dos sovietes e outros grupos. Embora o soviete de Yaroslavl tentasse dissuadir os trabalhadores de fazer registos, no dia seguinte a manifestação de uns 500 trabalhadores obrigou a que os soldados fossem chamados para levarem a cabo três dias de registos em mosteiros, outros estabelecimentos religiosos, lojas de alimentação, empresas comerciais, uma cooperativa de consumidores, escritórios municipais, um orfanato, o quartel dos bombeiros e apartamentos e casas particulares. A cidade estava dividida em secções, cada uma atribuída a um grupo de registo formado por representantes dos trabalhadores, soldados armados e milícias (Golos, 26 de julho, 17, 18 de agosto, 10, 22, 24, 26 de setembro, Laroslavskaia mysl ‘, 22, 23 de setembro). Nenhuma mulher participou nestes registos. No entanto, os jornais descreviam-nas no meio das multidões que rondavam pelas ruas e fora das portas dos edifícios registados à espera de saber que comida se tinha encontrado e, às vezes, levando a cabo os seus próprios registos independentes “não autorizados”.

Em Kostroma (e talvez também noutras zonas operárias) aconteceu uma coisa parecida. Ao princípio, os soldados armados e famintos apoiavam as ações alimentares das mulheres. Mais tarde, o município viu-se obrigado a autorizar os trabalhadores a «organizar apressadamente comissões de delegados operários, soldados e camponeses para realizar registos. À cabeça de cada comissão havia um representante dos trabalhadores. Cada comité tinha um soldado armado atribuído para sua proteção». Descobriram-se quase 500 toneladas de alimentos, incluindo farinha de trigo e centeio, aveia, arroz, açúcar e chá (Povolzhskii vestnik, 20, 22, 23 de agosto, 10 de setembro de 1917).

Assim, os registos nos quais as mulheres tiveram um papel importante continuaram a ser ad hoc, incluindo quando eram apoiadas pela força armada dos soldados. As mulheres não criaram planos sistemáticos, dividindo a cidade em regiões e destacando algumas delas para cobrir cada zona. O mais significativo é que as mulheres não desenvolveram as suas ações nas instituições de trabalhadores e soldados existentes, como faziam as inspeções organizadas.

Por que razão as mulheres não se socorriam dos grupos de fraternidade com base nas fábricas como faziam os seus maridos, pais e filhos? E em novembro, em Moscovo, nas lutas de rua, por que razão as mulheres ajudaram nas barricadas as unidades de homens organizadas com base na fábrica apenas de forma individual e não como grupos de mulheres organizadas por fábrica, do mesmo modo que as suas contrapartes masculinas? Ainda não podemos responder a estas questões de forma definitiva, mas podem procurar-se pistas no registo histórico.

Para a compreensão do patriarcado da classe trabalhadora russa do princípio do século XX

Durante os enfrentamentos de rua de Moscovo em 1917 e durante toda a Guerra Civil, os grupos de fraternidade masculinos de fábricas e oficinas foram uma base instantânea para as unidades de combate. A historiadora russa da classe trabalhadora, Diane Koenker, escreveu:

«Ao longo do verão [de 1917], as fábricas tinham organizado unidades armadas ou semiarmadas de homens jovens, geralmente para a defesa das suas próprias fábricas. Depois do motim de Kornilov, estas unidades foram reforçadas com esquadrões de combate, formalmente Guardas Vermelhos, organizados sob a égide dos comités de fábrica, dos sovietes ou dos comités do Partido Bolchevique» (Koenker, Moscow Workers, 337).

Um trabalhador escreveu no seu diário que, na véspera do combate de rua de outubro, «uma fábrica competia com outra para ver quem conseguia chegar mais rapidamente ao soviete para conseguir armas». Outro recordou: «Destacamento após destacamento apinhava-se no soviete. O primeiro a chegar foi o destacamento [dos trabalhadores] da Zolotorozhskii. Atrás deles corriam, competindo entre si, a fábrica de Guzhonov, os trabalhadores das fábricas Podobedov, a fundição de Dangauer, a fábrica têxtil Marte, a fábrica de chá Karavan, entre outros».

O mesmo tipo de fraternidade masculina se observou também entre os destacamentos da Guarda Vermelha de cidades operárias e assentamentos distantes de Moscovo, que se apoderaram das instituições de poder nas suas localidades, e às vezes viajavam até Moscovo para apoiar os combates de rua. Os trabalhadores homens continuavam a estabelecer facilmente alianças com os soldados revolucionários do exército ex-czarista, tal como o haviam feito durante os registos de alimentos.

Estes grupos de trabalhadores homens de fábricas e oficinas passaram facilmente, mais tarde, a unidades dispostas a combater em frentes longínquas durante a Guerra Civil. Nas suas memórias, os trabalhadores que lutaram durante os dias de outubro de Moscovo e na Guerra Civil quase sempre se identificam a si mesmos e a outros trabalhadores como membros de uma fábrica em concreto ou de outros grupos locais de solidariedade. Como vimos, as trabalhadoras não tinham estruturas similares de vinculação grupal. De facto, a sua socialização arredou-as especificamente da coesão grupal.

Como foi possível que a “fraternidade de fábrica” dos trabalhadores russos estivesse tão bem preparada para formar a base das unidades de combate durante a Revolução e a Guerra Civil?

Pistas a partir das druzhina russas e das atuais unidades do exército dos Estados Unidos

A brilhante (mesmo que pouco conhecida) investigação de Gerald M. Easter sobre os primeiros grupos provinciais de partidários bolcheviques esboça o modo como se formou a sua solidariedade emocional, que começou, inclusivamente, antes da Revolução, em razão da ameaça constante, da atividade clandestina, da prisão pela polícia secreta e do exílio siberiano. Os compromissos internos destes grupos aprofundaram-se ainda mais, segundo a investigação de Easter, durante os anos de luta desesperada da Guerra Civil, em unidades militares de soldados fortemente unidos, centradas em torno de líderes militares.

Atualmente, estamos cientes dos poderosos laços emocionais que se formam dentro das unidades de combate norte-americanas (todas masculinas, até há pouco tempo) nos distantes campos de batalha. Os soldados norte-americanos costumam dizer que, uma vez no campo de batalha, não lutam pelos “gloriosos” objetivos ideológicos identificados pelo governo de Washington. Pelo contrário, lutam unicamente pela segurança e a vida dos seus companheiros soldados, com quem criam vínculos profundos e poderosos que experienciam ao passar juntos por situações de vida ou morte.

Mesmo que Easter não se referisse apenas aos trabalhadores russos/soviéticos, a sua conceção dá-nos pistas, em parte porque refere uma semelhança histórica com a organização druzhina que subjaz no período da “recolha de terras” à volta de Moscovo para formar o primeiro Estado russo. Da mesma forma que com as druzhinas históricas, «a druzhina bolchevique teve um papel duplo, militar e político» (Reconstructing the State, pp. 34-35).

A base material do patriarcado dos trabalhadores russos

Para compreender as forças da vida quotidiana que moldaram o patriarcado da classe trabalhadora russa (e o campesinato), é necessário compreender as exigências que o czarismo impôs a estes homens, para além das demandas da sua vida laboral na fábrica. Em concreto, a questão do recrutamento militar pesou fortemente sobre as massas rurais e urbanas durante séculos até 1917, e criou, supor-se-ia, a cultura camponesa e da classe operária. A idade de recruta foi reduzida para os 25 anos depois da conquista da Crimeia no final do século XVIII. Depois da derrota da Rússia, em 1855, na Guerra da Crimeia, o serviço militar tornou-se obrigatório para todos os homens com 20 anos: um período de 6 anos a tempo inteiro, a que se somavam 9 na reserva. Na altura da Primeira Guerra Mundial, todos os homens podiam ser recrutados aos 21 anos, com um compromisso de serviço ativo e de reserva que ia até aos 43 anos. Embora as unidades do exército czarista não se baseassem nas fábricas como no período bolchevique, parece plausível que a cultura operária/camponesa se formou durante séculos pela necessidade de os homens aprenderem a criar laços estreitos com grupos de homens próximos, como uma espécie de ensaio para a vida militar.

Porquê que, do ponto de vista histórico, era tão pesada a carga militar dos trabalhadores e dos camponeses russos? Perry Anderson atribui o início precoce do absolutismo na Rússia à «constante pressão material sobre a Rússia por parte dos pastores tártaros e turcomanos da Ásia central» (Lineages of the Absolutist State, 201). Durante séculos, estes brilhantes cavaleiros nómadas viveram em grande parte de ataques escravos; todos os anos, durante a sua “colheita da estepe”, percorriam as planícies (ocasionalmente até Moscovo) para sequestrarem centenas ou milhares de homens, mulheres e crianças russos, fazendo-os caminhar com correntes através das estepes para vendê-los nos mercados de escravos na Crimeia e outros lugares. O nome francês e inglês para “escravo” deriva de “eslavo”, porque durante muitos séculos os dois foram sinónimos na Europa e no Império Otomano.

Poderosos inimigos em toda a planície aberta a Oeste, diz Anderson – incluindo Suécia e Polónia – mantiveram o Estado centralizado da Rússia durante mais tempo que qualquer outro na Europa; Anderson identifica-o como o único Estado absolutista «no continente que sobreviveu intacto no século XX» (Lineages of the Absolutist State, p. 328).

A cultura da classe trabalhadora russa é moldada pelo serviço militar?

Para além das lutas organizadas da vida de todos os dias, a luta aparece em muitas das canções que os trabalhadores cantavam juntos. Historicamente, as canções dos homens «falavam, a sua maior parte, das relações sociais dos homens fora do espaço familiar (vnesmeineyi). (…) Eram levadas livremente de região em região da terra russa por vagabundos, cocheiros e pelo serviço da guerra» (Lopatin, Prokunin, Russkie narodnye liricheskie pesni, p. 186).

Uma das temáticas destas canções era a das heroicas unidades militares que lutavam gloriosamente até à morte. Muitas outras canções dos homens abordavam a alienação que se vivia no exército – e, por associação, noutras áreas da vida: «Morreu longe da sua terra-natal / Morreu longe da sua família… / Estes olhos nunca foram fechados, / Por mãos ternas e carinhosas… / Os desconhecidos enterram o soldado / Bem fundo na terra gelada / Ali, mais além da porta onde todos os ventos uivam, / Em algum sítio, nesse lugar abandonado por Deus, longe…» (Tsentral’nyi Gosudarstvennyi Arkhiv Literatury I Iskusstva, p. 1432). E «Uma rosa ergueu-se com uma framboesa / Logo, logo floresceu / Neste tempo / Uma mãe deu à luz um filho / Ela criou-o, alimentou-o… / Depois de o ter criado com dificuldade / Ela cedeu-o para ser soldado… / Numa terra estranha / Sem vento, seca-se e rasga-se; / O comandante da companhia / Repreende os soldados sem culpa. / (Mãe:) “Meu querido filho, / Volta.” / (Filho:) “Minha querida mãe / Não podemos voltar. Agora a nossa vontade não é nossa. / É a vontade do magnífico czar”» (TsGALI, p. 483).

Estas canções mostram-nos o conjunto de sentimentos que os trabalhadores russos experienciavam sob o sistema patriarcal, no qual eles próprios não estavam longe do patamar inferior, sujeitos aos donos das fábricas, aos capatazes, aos funcionários do governo, aos comandantes do exército e ao czar.

Permanência das estruturas sociais czaristas durante os anos da Revolução e da Guerra Civil

As mulheres trabalhadoras russas foram militantes extraordinariamente ativas nas ruas da RIC ao longo de 1917, na tentativa de conseguirem comida para as suas famílias. Para a maior parte delas, o seu ativismo foi uma extensão do seu forte compromisso diário com o cuidar dos filhos, especialmente com a falta de rendimento suficiente e de atenção por parte dos pais. As mulheres trabalhadoras russas eram “amazonas”, como as descrevia o repórter, para os seus filhos, tanto na vida quotidiana como durante 1917. No entanto, à medida que a procura de alimentos, o confisco dos soldados revolucionários e as organizações de fábrica constituídas por homens se desenvolviam, as mulheres foram expulsas ou postas de parte. As exigências militares do Estado czarista contribuíram vivamente para uma divisão do trabalho quotidiano baseada no género, que inibia a capacidade das mulheres para uma intervenção organizada a longo prazo durante as revoluções. O surgimento de três anos de Guerra Civil renovou a necessidade de contingentes de homens prontos para a batalha, conduzindo à reprodução da organização social masculina czarista.


* Doutorada em História Russa. Artista, escritora e ativista ecologista.

Artigo originalmente publicado em LeftEast. Disponível aqui