Não sejas Trump!


Artigo de Andrea Peniche. Fotos de José Miguel Reis.

As manifestações anti-Trump do passado dia 21 de janeiro trouxeram para as ruas de oito cidades portuguesas muitas centenas de pessoas.

O velho discurso desistente que diz que em Portugal as pessoas não se mobilizam e que os movimentos sociais não existem caiu por terra. Quando nos metemos nisto, tínhamos presente que a distância que nos separa dos EUA poderia ser um contratempo, mas nunca desanimámos, exatamente porque estávamos convictas e convictos da importância de tomar posição num momento em que o mundo está a mudar, em que a direita extremista nos quer fazer recuar séculos de conquistas de direitos cívicos, políticos, sociais e culturais. Para nós nunca houve lá e cá. Se os EUA estão sob a ameaça da Administração Trump, o Brasil vive o retrocesso de Temer e a Europa já tem uma Hungria fascista, apanhou um enorme susto na Áustria e receia o que possa vir a suceder em França. Por isso esta Marcha era contra todas as opressões e todas as explorações. Por isso marchámos em defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, das e dos imigrantes, das e dos refugiados, do trabalho com direitos, do precariado, dos desempregados e das desempregadas, das trabalhadoras e dos trabalhadores sexuais, das pessoas sem-abrigo, portadoras de deficiência, LGBTI… Marchámos pelo antirracismo, pelo feminismo, pela justiça climática. Marchámos contra Trump, Temer e Le Pen. Marchámos homens e mulheres, de todas as gerações. Mas ouvir a rua a expressar-se no feminino é uma experiência brutal!

Todo o processo de construção da campanha contra o assédio sexual em espaço público e de organização da Marcha das Mulheres foi, para nós, uma enorme e importantíssima aprendizagem. A ideia nasceu numa reunião de ativistas feministas. Decidimos marcar uma reunião aberta, em novembro, convocando associações, coletivos, organizações políticas e diversos ativismos para a apresentarmos. A ideia era simples: a aprovação da lei que criminaliza o assédio sexual em espaço público significa um grande avanço, mas não é suficiente para acabar com ele. Era, pois, necessário desafiar o senso comum exatamente onde ele mais se manifesta e nos agride: a rua. Simultaneamente, decorria a campanha eleitoral nos EUA e, no dia seguinte às eleições, vimos a convocação da Marcha das Mulheres em Washington. Achámos que fazer coincidir o fim da campanha do assédio com a organização/participação nesta Marcha fazia todo o sentido. E foi essa ideia que levámos à reunião. Nela, discutimos a campanha do assédio e assumimos a organização da Marcha das Mulheres. A partir daí foi um processo de construção coletiva do discurso e dos materiais – panfleto, autocolante, cartaz –, e do planeamento e execução de tarefas. E se na primeira reunião estavam representadas cerca de oito organizações, terminámos com mais de 50.

Estivemos na rua a distribuir panfletos e a meter conversa com as pessoas. Descobrimos que o assédio sexual em espaço público, ao contrário do que alguma opinião publicada diz, é um problema reconhecido e sentido por uma parte muito significativa das mulheres. Perante um olhar de recusa, bastava dizer: “é sobre o assédio, é pelo nosso direito a andarmos na rua em segurança e em paz”, e logo as mãos se estendiam para agarrar o panfleto.

Crescemos na discussão e crescemos com a experiência de fazermos campanhas em conjunto. Vimos, durante este processo interseccional, um coletivo ambientalista declarar-se ecofeminista. E percebemos que este movimento que procura reunir e coordenar os diversos ativismos torna todas as lutas mais urgentes. Às preocupações de cada ativismo concreto somaram-se outras, e uma enorme rede de solidariedade continua em construção.

Discutiremos o futuro e outras iniciativas que podemos construir em conjunto. Este ano é ano de autárquicas e era bom pensarmos a cidade em conjunto. Uma coisa é certa, esta campanha foi só o começo.