Mulheres, precárias e feministas

Artigo de Patrícia Martins.

No passado dia 21 de Janeiro de 2017, marchámos juntas e juntos num protesto internacional de reação à tomada de posse de Donald Trump nos Estados Unidos da América, exigindo igualdade, e levando às ruas uma campanha contra o assédio das mulheres no espaço público em Portugal. Movimentos feministas, anti-racistas, pela justiça climática, LGBTQ+, manifestaram-se um pouco por todo o mundo, contra as políticas misóginas, racistas, homofóbicas e transfóbicas: “Trump, Le Pen, Temer não passarão!”.

A iniciativa nacional Parar o Machismo| Construir a Igualdade deu origem a esta importante mobilização, juntando em Braga, Porto, Coimbra e Lisboa mais de 1500 pessoas. Somos uma rede de ativistas feministas de diversas associações, coletivos e organizações políticas e abraçamos o feminismo para as 99%. A nova onda feminista internacional coloca na frente de batalha a violência contra as mulheres, os direitos sociais e laborais, a imigração e a discriminação das mulheres lésbicas e trans.

Somos precárias; somos desempregadas de longa duração; vivemos com a pensão de sobrevivência; trabalhamos a falsos recibos verdes; fomos contratadas através de falsos estágios; recebemos por baixo da mesa; o nosso patrão já nos pediu favores sexuais em troca de um contrato de trabalho; fazemos o mesmo trabalho que o nosso colega mas ganhamos menos no final do mês; somos prostitutas e por isso não temos direito a licença de maternidade; somos chantageadas por não termos documentos; lavamos, limpamos, cosemos e cozemos, mudamos as fraldas, passamos a ferro e, ainda nos perguntam nas entrevistas de emprego “Está a pensar engravidar?!”.

As mulheres continuam a debater-se com mais obstáculos no acesso às mesmas oportunidades e condições de trabalho comparativamente aos homens. As mais recentes estatísticas informam-nos que para a mesma função, as mulheres recebem em média menos 16,7% por mês do que os homens, ou seja, 61 dias de trabalho não remunerado por ano. Em Portugal, 30% das mulheres desempregadas não têm acesso ao subsídio de desemprego, e esta diferença é maior quanto menor for o grau de escolarização. São as mulheres o grupo que mais sofre assédio moral e sexual no emprego. Estas situações aumentam e são menos visíveis quando estamos perante vínculos laborais precários.

No último 1.º de maio, saímos às ruas do Porto para exigir igualdade salarial, o fim do assédio e a punição da discriminação. Para esta luta toda, a proposta feminista anticapitalista só pode ser a resposta consequente para um alargamento e radicalização da luta pelos direitos das mulheres. Não faltaremos à chamada.


*Técnica de intervenção comunitária, ativista feminista.