Movimento Estudantil fora dos grandes centros urbanos (A abrir janelas onde nem paredes havia)

Artigo de Fábio Capinha.


O texto que se segue ao titulo poderia passar por uma analise detalhada ao tráfego rodoviário e pedonal de alunos que vão e vêm da escola para casa e da casa para a escola, por aí teríamos feito, sem duvida alguma, toda a justeza ao título do texto que se propõe escrever.

Não é ser cínico começar com uma dose de sarcasmo, é simplesmente tentar encher de caracteres, um tema que não tem muita expressão nem muito significado na vida de grande parte dos estudantes do ensino superior, que como eu, não estudam nas cidades de Lisboa, Porto ou Coimbra.

É inútil começar este artigo sem explicar de onde vem todo este sarcasmo, estudo no IPLeiria. Sendo este o meu quinto e desejado ultimo ano, durante todo esse tempo passei de um esperançoso pupilo, que se baseia nos livros de Gorki, para levar a cabo o seu percurso científico e académico, para um enfadado estudante que já vê a academia como reflexo dos muitos problemas societais que o nosso sistema capitalista promove.

“Os sonhos do Ser-Humano* não conhecem limite, contudo, muito lentamente a humanidade se vai enchendo em dons de espirito, pois para viver tem de colecionar dinheiro em vez de ciência, só quando banirmos de vez a avidez seremos realmente livres!” [1]

Este foi o mote que levei, quando entrei para a academia, também esperei banir a avidez.

Contudo neste último ano resolvi com ajuda de outros colegas, criar um coletivo aberto à comunidade académica, com o intuito de organizar sessões e debates, que falassem daquilo que em cinco anos nunca vi discutido na escola, desde o regime fundacional, à falácia do empreendedorismo e por último um jeitoso debate sobre as praxes, como se poderia falar de movimento estudantil sem abordar as praxes?

O leitor que me lê deve julgar que fraca consequência terá tido este coletivo, para suscitar tanto sarcasmo, se assim for o caso, desengane-se, embora tenhamos tido reações desconfiadas ao início, logo começamos a construir confiança junto da comunidade, confesso que mais junto da comunidade docente do que propriamente dos nossos colegas, tivemos algumas declarações simpáticas como: “Em dezoito anos que leciono nesta escola nunca vi nada parecido”, ou ”Desde que trabalho na biblioteca da escola nunca vi realizar-se aqui coisa parecida com um debate.”

Percebe-se facilmente o ponto da situação, um sítio onde organizações estudantis, à margem de associações de estudantes e núcleos de cursos, simplesmente não existem. Aqui o movimento estudantil, manifestações antipropinas, campanhas disputadas às associações de estudantes, etc, são aliens.

A campanha de despolitização levada a cabo na generalidade do ensino superior tem maior consequência em cidades que não são as citadas acima, a discussão crítica fica muito debilitada, pois não há em cidades como Leiria espaços alternativos de discussão, como em Coimbra existem as republicas. Também podemos referir o facto de que o fluxo de alunos que adere a faculdades ou politécnicos, fora de lisboa e porto, o faz não só mas também por razões económicas e essa limitação financeira acaba por limitar também a sua participação nos processos de decisão da sua faculdade ou politécnico.
Podemos culpar a praxe que hierarquiza e suaviza os espíritos mais rebeldes, dizendo que a rebeldia é ser praxado para depois praxar, podemos culpar as associações de estudantes por funcionarem como comissões de festas, e esquecerem todo o seu papel como sindicato dos estudantes, os órgãos do conselho geral por não incentivarem a discussão pública e até por preferirem o obscurantismo de muitos temas que nos interessam a todos. Depois podemos culpar a macro pintura, a sociedade competitiva que vira cada um para dentro de si, a crise económica que não dá espaço para as pessoas serem pessoas, no final podemos até culpar o capitalismo pois é na verdade o culpado de todos os males, não fosse o autor um bom anticapitalista.

Portanto, na sua generalidade o politécnico onde estudo encontra-se adormecido, na sua qualidade de gerador massa crítica, mas existem exemplos bons lá fora, que dão força a quem vereda por este caminho do ativismo estudantil. O facto da Lista L da FCSH ter ganho a AE, que engloba colegas das lutas nobres da Não Vai Ter Fundação e da AlternAtiva, a criação de coletivos que propõem levar a cabo uma integração alternativa à praxe, coletivos que se propõem a organizar debates e conferencias para a discussão de temas importantes para a academia e comunidade como o Coletivo Economia Sem Muros da Nova, Coletivo Agora Pensa de Coimbra.

Estes movimentos que descrevo aqui mostram que algo está a mudar no paradigma estudantil, embora não podendo concorrer diretamente com os movimentos hegemónicos da praxe, ou, salvo raras exceções, ganhar associações académicas, estes grupos demonstram que há interesse em discutir temas sérios, dinamizar o espaço estudantil com atividades que promovem a construção crítica, assim como pensar numa outra escola, numa outra academia.

Estes exercícios ajudam-nos a perceber o quanto há para fazer no ensino superior, combater propinas, combater a praxe com a criação de integrações positivas, combater regimes fundacionais que implicam a semiprivatização do ensino superior, tornar a escola um espaço democrático em que as decisões passam pelo conhecimento dos alunos, informar e esclarecer os alunos sobre o mercado de trabalho sendo estes os próximos precários em estágios infinitos, transformar as associações de estudantes em sindicatos ativos na defesa do interesse da comunidade estudantil.

O modesto coletivo que ajudei a fundar chama-se Coletivo CE – Conhecimento e Emancipação, lançamos o debate do regime fundacional, questionamos o dogma do empreendedorismo, debatemos a praxe, e temos cada vez mais temas e ideias de atividades para fazer, temos pouco tempo sim, mas recebemos simpatia e respeito de docentes e alunos que nos seguem, existe curiosidade no que fazemos e interesse em participar, estas são as sementes que lancei ao chão em cinco anos de IPLeiria, agora é fazer com que os frutos sejam abundantes.


*Estudante de Engenharia Electrotécnica e Computadores, Coordenador da distrital de Leiria do Bloco de Esquerda.