As últimas duas décadas foram marcadas pelo recuo na relação de forças social. Nesse período difícil, o Bloco provou que a esquerda revolucionária pode ter um caminho diferente da absorção pelo PS e pelo institucionalismo. Essa insubordinação assenta numa cultura de conflito político e social.

A autonomia do Bloco face ao centro continua a depender dessa cultura. Se estiver reduzido a ser uma referência institucional para as lutas existentes, o Bloco corre o risco da conformação. Pelo contrário, devemos ser um agente social mobilizador, escola e laboratório, corpo militante, dedicados a dar maior alcance ao conteúdo anticapitalista de cada luta, de modo consistente com uma estratégia socialista.

Ensaiam-se hoje os passos constituintes de futuras transformações. Nas experiências de movimento que construirmos devem desenvolver-se as estruturas participativas da luta contra-hegemónica, em que se revelem a natureza do sistema e os modos concretos de o enfrentar. Acumular forças é isso: gerar experiência militante contínua, que junta e prepara, conquista e defende, perde e ganha, regista e transmite. Nenhum partido se constrói em progresso linear, muito menos só eleitoral.

Esta Rede Anticapitalista tem um objetivo muito concreto, de curto, médio e longo prazo: contribuir para mudar a prática partidária quanto aos movimentos e lutas sociais. Sem um esforço consciente, debatido abertamente e feito de energias novas, muitas das atuais estruturas do Bloco não serão capazes de mudar as suas piores rotinas. Perante essa dificuldade, recusamos o recuo para o fechamento em grupos, mais em torno de pessoas do que de ideias, do passado e não do futuro, formas de sectarismo interno que afastam o Bloco do trabalho de base e que servem de justificação para uma cultura de impotência. Aqui estamos, para combater esse fechamento e contribuir para que a renovação da esquerda revolucionária venha da luta social.

Não somos uma nova tendência, não viemos disputar uma nova hegemonia no Bloco ou outro equilíbrio de direção. Como bloquistas, apoiamos a força da Catarina Martins e reconhecemo-nos na voz que a Mariana Mortágua ou a Marisa Matias souberam dar ao Bloco. Estivemos ativamente na Moção U e julgamos que a Plataforma Unitária continua a ser indispensável: protegeu a cultura de convergência do Bloco quando esta esteve ameaçada e produz uma orientação forte, socialista e de combate, que continua a fazer caminho, na conjugação necessária à ação do Bloco. Debate plural é isso: procura de consensos para a ação e não contagens de espingardas ou rituais de afirmação de identidades fechadas. Mas, como está, o Bloco não consegue superar as suas limitações e crescer como partido: é por isso que queremos desbloquear o trabalho de base e combater as resistências à intervenção social. Faltam-nos mais movimentos de causas, trabalho sindical, coletivos nos locais de trabalho, jovens ativistas e uma cultura de insubmissão que organize, responda e vire do avesso o poder do capital e de todas as opressões.

De forma aberta e online, escreveremos as nossas ideias, discutiremos como incentivar o trabalho de base, em articulação com quem queira essa mudança que consolida a identidade do Bloco: um partido na luta social, um movimento nas ideias e uma força na brecha contra o capitalismo e todas as dominações. A Rede Anticapitalista é por isso um manifesto pelo ativismo de base, contra as seitas, pela luta socialista.

Adriano Campos
Ana Bárbara Pedrosa
Ana Rosa
Andreia Quartau
João Camargo
Luís Leiria
Rodrigo Rivera
Tatiana Moutinho