É o tempo e a hora do enraizamento: por um Bloco com mais força a nível local

Artigo de Maria Manuel Rola*, Pedro Lourenço** e Susana Constante Pereira***.

A fragilidade do enraizamento local do Bloco de Esquerda tem sido sistemática e consensualmente identificada como um dos principais obstáculos ao seu crescimento. Com uma intervenção autárquica condicionada pelos tímidos resultados obtidos ao longo de 18 anos de partido-movimento, a mudança continua sem se fazer sentir. Num panorama em que existe um claro acréscimo de confiança no Bloco e considerando a expectativa que daí deriva, estaria agora no momento de traduzir esta análise em prática alternativa, sendo grande a responsabilidade, tanto em face do atual ciclo autárquico, como pelos resultados obtidos nos últimos processos eleitorais.

Na procura da coerência com este cenário colocam-se questões prementes, cuja resposta determinará a forma como queremos fazer acontecer a nível local. Até que ponto temos trabalhado fora das sedes, com os e as ativistas das cidades, com as pessoas que nos contactam e batem à porta? Até que ponto temos tido capacidade de organização e de agitação? Até que ponto temos convertido expectativa em ativismo e fomentado uma insurgência geradora de movimento, a partir da abertura a todas e a todos que retiram do concreto das suas vidas a força para a luta?

A nível nacional, a participação na marcha mundial das mulheres, as manifestações pelo encerramento de Almaraz, a dinamização das sessões com os precários do Estado e a sua crescente mobilização ou o envolvimento nas marchas do orgulho em várias cidades, são exemplos que demonstram como conseguimos participar em espaços de ativismo fora de portas institucionais. Espaços partilhados com ativistas que reconhecem o Bloco como força de intervenção capaz de se diluir e de se encontrar também em movimentos outros, extravasando o conforto das soluções de sempre, herméticas e moralistas. Mas o efetivo enraizamento pede bastante mais e é no preciso momento destas eleições autárquicas que devemos repensar a forma como nos construímos enquanto resposta política, à medida do concreto da vida das pessoas, em cada cidade e em cada lugar. Não o podemos não fazer, se temos a pretensão de nos apresentar como projeto político de alternativa ao estabelecido e vezes demais cristalizado.

Importa, para isto e desde já, olhar crítica e construtivamente para a maneira como desenvolvemos o nosso trabalho autárquico e como temos vindo a intervir a nível local. Como e com quem fazemos a democracia concreta, se envolvemos as pessoas, se cuidamos a sua participação nos projetos que temos para cada cidade, se esses projetos são construídos a par e em coletivo, se integram ideias diferentes com capacidade de criar as sínteses que são afinal a marca de sempre do Bloco de Esquerda. Procurar as mesmas soluções com os intervenientes de sempre, cingindo-nos a espaços de atuação cristalizados afasta-nos de uma visão e de uma forma de fazer política a nível local verdadeiramente coerente com o nosso discurso e ideologia.

Tal como acontece com o trabalho parlamentar, o trabalho autárquico é um palco por excelência para causas e protagonistas de uma esquerda urgente, com o acréscimo não só  da oportunidade como do dever de estreitar canais de ligação ao concreto da vida das pessoas e potenciar as condições para o envolvimento de todas e de todos na construção política nas cidades.

É premente que a participação na intervenção autárquica do Bloco extravase a composição das listas às assembleias municipais e de freguesia, ou a natural finitude dos órgãos do partido. Uma abordagem institucional e personificada só reforça a nossa fragilidade e falta de enraizamento, que na realidade deve ser feito por aderentes e simpatizantes do Bloco, gente de verdade que habita as geografias onde devemos chegar e que é o motor das ligações que queremos resgatar com pessoas, coletivos, causas e movimentos, que são afinal os seus.

A intervenção política local, nos órgãos autárquicos e nos lugares onde vivemos, nas relações, vivências e mobilizações do dia-a-dia, naquilo que nos é próximo é, por natureza, um espaço onde o ativismo se manifesta em coletivo e de forma horizontal. É aqui que os e as aderentes, mais recentes e com história, podem passar à ação, fazer das dores forças, combater as injustiças e politizar a vida. É neste âmbito que o risco de verem a sua militância vazia de experiência concreta se pode atenuar, conquanto seja promovida a sua participação e a esta seja atribuída relevância.

É esta natureza que requer uma forma diferente de fazer política, através da criação de grupos de trabalho onde se encontrem os e as eleitas, os e as aderentes, os e as dirigentes, os e as simpatizantes, os e as ativistas em prol de projetos autárquicos consistentes e alargados, condição necessária ao enraizamento que nos faz falta. O papel da Comissão Nacional Autárquica e das Coordenadoras Concelhias é preponderante, nomeadamente na inversão de uma tendência paternalista nas práticas ao nível da intervenção autárquica, no sentido da mobilização das pessoas, partindo de princípios como a responsabilidade, o envolvimento, a renovação, a coerência com o que defendemos, a transparência, a prestação de contas e o trabalho comum e horizontal, condições necessárias para a participação e para processos que se pretendem democráticos. E estes têm de, necessariamente, partir de dentro à procura do que poderá encontrar-se lá fora.

O poder local é um pilar fundamental da nossa democracia, tanto pela proximidade com as cidadãs, como pelas oportunidades de participação que permite. A experiência autárquica que temos demonstra que uma política de causas, estruturada e consistente, consegue ter impacto ao nível local e permite que as pessoas reconheçam que o Bloco pode, também aí, ser decisivo.

É com estes pressupostos por base, que devemos, nestas autárquicas de 2017, analisar a situação política concreta de cada contexto, identificar causas, mapear geografias sociais, envolver mais agentes locais, apresentar novos protagonistas, definir objetivos políticos coerentes e desenhar modelos alternativos de intervenção, tendo em conta experiências anteriores pautadas pela construção coletiva, pela abertura e pela insurgência que recentemente devolveu a força ao Bloco.

O Bloco, enquanto partido republicano e progressista, não deve nem pode repetir comportamentos que luta ativamente para modificar na sociedade. Não pode nem deve enclausurar-se, nem decidir candidaturas em salas fechadas e muito menos não se predispor a ir de encontro de quem consigo pode e quer dialogar. A fulanização, os ‘dinossauros’, a falta de envolvência de pessoas com menos experiência partidária, o afastamento de outras formas de construir a participação política e a sociedade, enfim, os traço s e os gestos que são para nós alvo evidente de censura não podem estar presentes na nossa ação nem estar subjacentes às nossas escolhas sobre quem somos e como queremos construir-nos politicamente. Porque todos os dias fazemos esta escolha, devemos estar todas e todos atentos e alerta, para que em cada bairro, em cada freguesia, em cada concelho, em cada região, não se perpetuem e se modifiquem de forma radical os dogmas bafientos da velha política.

É pois, agora com a nossa ação amplificada, chegada a hora e o tempo de envolvermos as pessoas neste trabalho político que se pretende mais politizado que regimental, legalista ou colegial. É hora e tempo de tornar tangível e concreta a intervenção autárquica do Bloco para todas e para todos. É hora e tempo de partilhar a experiência e de nos tornarmos relevantes em coletivo. É hora e tempo de traduzir ao nível local aquilo que o Bloco representa a nível nacional. Nestas autárquicas, tem mesmo que ser a hora de enraizamento.


*Designer gráfica, ativista contra a precariedade, dirigente nacional do Bloco de Esquerda.

**Farmacêutico. Mestrando em Ciência Política. Dirigente do Bloco de Esquerda do Porto.

***Profissional de Educação e Intervenção Social. Gestora Cooperativa. Dirigente do Bloco de Esquerda do Porto.