O discurso de Angela Davis na Marcha das Mulheres contra Trump

Neste momento desafiador da nossa história, lembremos que nós, as centenas de milhares, milhões de mulheres, transgêneros, homens e jovens que estão aqui na Marcha das Mulheres, nós representamos as poderosas forças​ de mudança que estão determinadas a impedir que as culturas moribundas do racismo e do heteropatriarcado se erguam novamente.

Nós reconhecemo-nos como os agentes coletivos da história e que a história não pode ser apagada como páginas da Internet. Nós sabemos que esta tarde reunimo-nos em terras indígenas e seguimos a liderança dos primeiros povos que, apesar do genocídio massivo, nunca renunciaram à luta pela terra, pela água, pela cultura e pelo seu povo. Nós saudamos hoje, especialmente, o Standing Rock Sioux.

A luta por liberdade dos negros, que moldaram a natureza deste país, não pode ser apagada pelo gesto de uma mão. Nós não podemos esquecer que vidas negras importam. Este é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que significa, para o bem ou para o mal, a própria história dos EUA é uma história de imigração e escravização. Espalhar a xenofobia, lançar acusações de assassinato e estupro e construir muros não apagará a história.

Nenhum ser humano é ilegal!

A luta para salvar o planeta, para parar as alterações climáticas, para garantir acesso à água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, à Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar a nossa flora e fauna, para salvar o ar: este é o ponto basilar da luta por justiça social.

Esta é uma Marcha das Mulheres e representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. Um feminismo inclusivo e interseccional que nos convoca à resistência contra o racismo, a islamofobia, o anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.

Sim, nós saudamos o Fight for 15. Dedicamo-nos à resistência coletiva. Resistência aos bilionários exploradores, especuladores e gentrificadores. Resistência aos privatizadores do sistema de Saúde. Resistência aos ataques contra muçulmanos e imigrantes. Resistência aos ataques contra as pessoas com deficiência. Resistência à violência do Estado perpetrada pela polícia e através da indústria do complexo prisional. Resistência à violência de gênero institucional e doméstica, especialmente contra mulheres negras.

Direitos das mulheres são direitos humanos em todo o planeta. E é por isso que dizemos ‘Liberdade e Justiça para a Palestina!’. Nós celebramos a iminente libertação de Chelsea Manning e Oscar Lopez Rivera. Mas também dizemos ‘Liberdade para Leonard Peltier! Liberdade para Mumia Abu-Jamal! Liberdade para Assata Shakur!’

Nos próximos meses e anos, seremos convocadas a intensificar nossas exigências por justiça social e a tornarmo-nos mais militantes em defesa das populações vulneráveis. Aqueles que ainda defendem a supremacia masculina branca e hetero-patriarcal devem ter cuidado!

Os próximos 1459 dias da administração Trump, serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.

Este é só o começo. E termino nas palavras da inimitável Ella Baker: ‘Nós que acreditamos na Liberdade, não podemos descansar até que ela seja alcançada!’ Obrigada.