Deus-dará, de Alexandra Lucas Coelho

Artigo de Ana Bárbara Pedrosa.

Deus-dará é um livro que não encontra par na produção literária portuguesa. Publicado em Novembro de 2016, é o terceiro romance de Alexandra Lucas Coelho e não só é o seu projecto literário mais bravo, audacioso e surpreendente, como é também um marco no pensamento pós-colonial através da literatura.

O livro divide-se em sete capítulos, que se referem a sete dias na vida de sete personagens: Inês, portuguesa, a ressacar de um amor por uma libanesa, investiga a presença árabe na cidade do Rio de Janeiro; Tristão, português, pergunta-se sobre a pertinência da sua tese de doutoramento em antropologia; Zaca, brasileiro, escritor, adia permanentemente a conclusão do seu romance; Judite, irmã de Zaca, advogada, livra corruptos de impostos; Gabriel, com uma pala no olho devido aos estilhaços de uma bala perdida, é sociólogo; Noé, estudante de Ciência Política, negra, activista, quer doutorar-se e ser mãe; Lucas, índio, emudereca de repente graças à morte violenta da mãe. O Rio de Janeiro, cidade pré-apocalíptica (ou em permanente apocalipse?), é não apenas o cenário, mas até uma parte central da narrativa, já que aparece enquanto ser palpitante e vivo, com tudo o que nos é apresentado: as relações coloniais que sobrevivem até hoje, as praças, os declives, a natureza, as construções desenfreadas, a herança portuguesa, casa-grande & senzala, o pré-apocalipse de uma cidade violenta que não pára. E, com isto, a história a renascer no indivíduo, os inúmeros toques que compõem um retrato panorâmico não só do Rio, mas da história entre Portugal e o Brasil: o corcovado, pois claro, e o Cosme Velho e o Machado de Assis e o Maracanã, mas também Dirk van Hogendorp, Rafael Bordalo Pinheiro e Ganda, o rinoceronte que Dom Manuel I quis enviar ao Papa.

Claro que um livro destes não se faz à distância. Não é possível escrevê-lo sem se ter metido um pé no Rio de Janeiro. A autora escreveu-o graças aos dois pés na cidade durante cerca de quatro anos, graças a um estudo bibliográfico intenso e graças à sua capacidade rara de juntar o microscópico ao global, ou de mostrar o global através do microscópico. Essa experiência no Brasil vê-se ainda na forma como casa, por todo o romance, o português europeu com o brasileiro, ainda que essa linguagem transatlântica, no meio de tanta coisa – intensa, social, política, literária –, quase se torne de somenos. Deus-dará é um livro acutilante e excitante, um murro no estômago de quem conhece o Brasil, dois no de quem não faz ideia. É que – como dizer? custa fazer paráfrases ao que abarca tanto – não é só a língua da autora, que tanto perde a gravata de Lisboa como a usa, que tanto usa o português dilatado pelo calor, açucarado, como usa o europeu. É um bocado mais: é uma investigação séria e completa, quase enciclopédica, que se junta num romance para uma visão panorâmica e micro ao mesmo tempo, mostrando-nos o que aconteceu fora de portas à história portuguesa desde Vasco da Gama. É lê-lo e ver-se despir-se a identidade nacional à nossa frente, é lê-lo e ver-se despirem-se os discursos colonialistas e imperiais, é lê-lo para que se restitua a dignidade de quem a perdeu por um sonho além-fronteiras que vinha do outro lado do Atlântico.

O primeiro encontro aconteceu há séculos. Diante dos brancos, em Itaquena, “aqueles homens brilhavam. A pele deles não tinha pêlos (…), todos inteiros ao Sol.” (p. 547). O primeiro português via um grupo de índios, diferentes, depilados: “Teriam alma?”, perguntava-se. E, enquanto o fazia, os índios perguntavam-se se os brancos teriam corpos. Sabiam que tudo tinha alma, mas, sob aquela roupa toda, sob aqueles volumes, que corpos teriam eles? Se comessem a sua carne, ganhariam poderes? Que derivaria desse primeiro encontro na praia de Itaquena? O que não se esperava, nesse dia de 23 de Abril de 1500, em que “tudo ainda era espanto, de um lado e de outro”, em que tudo era “utopia” (p. 548). Da utopia inicial, sobraria uma história mal contada por Portugal, que mascarou de descobrimentos, de heroísmo, o que foi pilhagem e catástrofe:

“A pergunta que o primeiro branco não supunha que o índio fazia: quem era eu? A pergunta que o primeiro branco não fazia a si mesmo: o que trazia eu? E o que veio a ser a resposta para ambas: eu era uma catástrofe. A maior catástrofe que um punhado de homens alguma vez trouxe a milhões de homens.” (p. 548)

Os dois mundos em choque teriam, a partir dali, as suas histórias entrelaçadas, condenadas uma à outra, e a formulação literária mostra-nos a relação de alteridade que provocaria o desenlace: os brancos recusar-se-iam a aceitar a influência do outro, porque queriam mudá-lo, impor-se a ele. Este mundo antropofágico e esta herança colonial estão presentes ao longo de todo o romance, o apocalipse iminente está presente desde o início, até no título. E é por isso que nas personagens de Alexandra Lucas Coelho vivem mundos, estratos de fenómenos sociais, heranças, memórias, culturas, a cultura da própria autora, incorporando o social como elemento interno da narrativa. É que a literatura tem este papel – fazer a análise do mundo sem ignorar o ruído, incorporar o ruído nos grandes fenómenos políticos, sociais. A autora fá-lo e ainda deixa perguntas, ainda impulsiona um debate. Num país que quis afirmar uma grandeza, cobrindo com a ideia romântica, brava, ingénua dos descobrimentos o que foi roubo, pilhagem, dizimar de povos, violações, pura crueldade baseada na superioridade racial e civilizacional, é emocionante que haja na criação literária quem dedique tantas horas, tanto esforço e tanto amor a questionar a história tal como nos é apresentada em Portugal. Afinal, quem foram os heróis do mar, e com que intuito? E de que forma se refere hoje Portugal a esse heroísmo? O que é, em Portugal, este dizimar de povos? O que chama Portugal à corda de mortos (p. 409) que une os dois lados do Atlântico? A autora responde a isto em Deus-dará, mostra-nos em que se foca Portugal, de que forma molda cidadãos através do ensino, o que evoca e o que tenta apagar da sua história:

“(…) dos manuais escolares ao discurso público, a tónica portuguesa, hoje, é celebrar Os Descobrimentos como se não tivesse acontecido o extermínio de pelo menos um milhão de ameríndios e o tráfico de quase seis milhões de africanos. Lisboa oferece evocações grandiosas dos séculos XV-XVI em monumentos, memoriais ou museus, sem que a antiga sede do império reflicta o que aconteceu a milhões de pessoas.”

Esta penúltima forma verbal tem um peso particular, pela sua ambiguidade semântica, e este Deus-dará advoga as duas teses: Portugal não reflecte sobre o lado escuro da história que tenta apregoar como unicamente heróica e Portugal não reflecte, no seu património cultural, o extermínio, o tráfico, a pilhagem. É bem verdade que, dos conteúdos programáticos das escolas ao discurso político da direita, se defende e se enaltece uma grandeza que não deriva de mais do que uma consciente amputação de um lado relevante da história. O resultado, claro, é uma versão maquilhada dos acontecimentos entre os dois países:

“Tudo isso faz da Expansão uma trincheira infantil de bandeirinhas e heróis, que empunha os feitos dispensando as consequências. O sangue não foi a sério, os mortos eram bonecos e não tiveram filhos. A pesar dos estudos de terceiros, da multiplicação de investigadores no Brasil e de várias gerações de académicos e artistas em Portugal terem reunido já vasta matéria para pensamento, a mortandade ameríndia e a escravatura africana tendem a ser desvalorizadas, a começar pelos líderes políticos. Quarenta anos de democracia não parecem ter sido suficientes para iniciar uma reflexão alargada pós-colonial, com tudo o que isso implicaria de enfrentamento dos demónios, e transformação.” (p. 466)

O colonialismo vive em nós por viver na nossa memória histórica, e o término da ditadura, com os sonhos megalómanos da construção de um império português, não serviu para dizimá-lo. O passado foi mal resolvido e prova disso é que o que num país é colonização noutro seja um descobrimento, uma história de iniciativa e de coragem, ocultando-se os roubos, os extermínios, a pilhagem. Mas, se basta estar uns dias no Brasil para entendê-lo, para ver a herança colonial em todo o lado (muito para lá de termos todos agora a mesma língua), que dizer de quem quis ir além, estudar o fenómeno a fundo, senti-lo, vivê-lo como só os grandes escritores o fazem, mostrar que nada foi enterrado, que o Rio de Janeiro é ainda um livro aberto, que as coisas ainda acontecem, que o apocalipse, afinal, é a vida de todos os dias? Do Vasco da Gama ao Marcelo Freixo, mostra-se um Rio em rebuliço, excitante, apaixonante e trágico, desesperado, angustiante, alegre, rápido, vertiginoso, escandaloso.

Alexandra Lucas Coelho conseguiu, e em menos de quatro anos, entrelaçar, abraçar tudo isto, e de forma fluída: não há elementos a mais, metidos a pontapé, não há ervas daninhas, não há propósitos que possam parecer escusados aos leitores. O efeito da narrativa, que segue escorreita, graças à sua habilidade narrativa palpitante, é uma unidade orgânica. Por isso, Deus-dará, um dos livros mais heterogéneos da literatura portuguesa coetânea e certamente aquele que mergulha com mais vísceras na questão do pós-colonial, será não apenas uma obra rara para os amantes da literatura, mas também uma pedra preciosa para historiadores e antropológos.

O romance ultrapassa, assim, o concatenamento de elementos literários, incorpora o elemento social enquanto elemento interno da construção literária. Esse elemento, mais do que possibilitar a realização do valor estético, é determinante desse valor, não somente conduzindo a narrativa mas actuando na constituição do essencial da obra enquanto obra de arte. Será, por isso, aquilo a que Umberto Eco chamaria obra em movimento, já que inclui a possibilidade de uma multiplicidade de intervenções pessoais: a autora oferece uma obra a acabar e, ao terminar o diálogo interpretativo, por ter sido a sua obra aquela que foi objecto de análise, será a sua forma aquela que é atingida, ainda que organizada por outra. A obra, ainda que fechada na sua perfeição de organismo calibrado, será aberta, já que é passível de múltiplas interpretações, não redundando isto na alteração da sua singularidade irreproduzível. Ou seja, Deus-dará é o reflexo de um olhar para o mundo, de uma análise sobre ele, de uma proposta de reestudo da história, de pensamento sobre as histórias das nações. A energia e a vontade nele postos derivam de uma fórmula criada durante a sua escrita que não poderá ser reinventada. A sua extensão panorâmica fazem dele caso singular na literatura, obra social, obra política, literatura no seu ponto mais alto.

Ao ultrapassar o concatenamento de elementos literários, Alexandra Lucas Coelho cria uma literatura em triplo movimento: uma que é produção, recepção e comunicação. Isto significa que a autora a considera a partir de uma relação dinâmica e dialógica entre autora, obra e leitor, rompendo com o exclusivismo da teoria de produção e da representação da estética tradicional e partindo do princípio de que o texto literário se faz a partir de uma certa relação com o seu público potencial, ou seja, a proposta de formulação estética que leva a público inclui já a imagem dos seus receptores. E, chegados aqui, convém-nos pensar em qual será o papel dos leitores desta obra. A autora cumpriu o seu papel ao iniciar esta relação dialógica, e fê-lo através de um trabalho completo a vários níveis (literário, antropológico, historiográfico, político), ficando o texto à espera de ser actualizado por via das leituras. Aliás, o início do processo dialógico é precisamente esse: o texto é feito para que alguém o actualize, postula a cooperação do leitor como condição dessa actualização. O leitor não é um elemento passivo e a sua intervenção, que é a leitura, faz parte da constituição da obra, que só vive através da sua participação activa através da crítica e da reflexão. A recepção nunca é apenas individual, é sempre também social e histórica – as reacções do indivíduo pertencem às reacções do seu tempo, o indivíduo interpreta historicamente.

O não dito, ou seja, o que não está manifesto no plano da expressão, faz com que o leitor precise de movimentos cooperativos, activos, conscientes, perceba que está perante um processo de comunicação, não de recepção passiva. A autora deixa espaços em branco por várias razões, cabe a quem lê a sua obra preenchê-los, já que a obra viverá na multiplicidade de interpretações, nos mútiplos sentidos que poderão ser atribuídos.

O literário é dissecável, ou seja, a sua interpretação é imanente e a iniciativa de interpretar pertence aos leitores. Claro, a sua competência interpretativa não tem de coincidir com a dos autores, mas Lucas Coelho encaminha a narrativa com uma mestria rara, levando-a para um debate que lhe interessa por motivos extra-literários, extra-estéticos. Ou seja, através da sua estratégia narrativa, sem torná-lo evidente, prevê as competências interpretativas e joga com elas. Partilhando códigos, que tanto são linguísticos como políticos ou sociais, conduz o texto de forma a que este tenha um tipo de leitores. E o tipo de leitores de Deus-dará é aquele que estiver descomprometido com a versão oficial da história portuguesa, que a maquilha e engrandece, é aquele que recusa viver numa relação de alteridade por se enquadrar confortavemente naquilo a que Benedict Anderson chamou comunidade imaginada, é aquele que não quererá perpetuar a verdade histórica escrita pela mão mais forte:

“Todos os impérios são uma história da violência, caberá a cada um atravessar a sua para ser mudado. Quando isso não acontece, o filho do que foi morto falará e o filho do que matou não conseguirá entendê-lo, porque o lugar do outro está por experimentar, nunca houve transformação. Quem teme deixar de ser quem é não vai saber quem foi nem quem vai ser. De olhos e ouvidos fechados aos espíritos continuará a cobrir-se com as mesmas palavras.”

*Ativista, doutoranda em Ciências Humanas.