Brasil: MAIS adere ao PSOL

Artigo de Luís Leiria.


O historiador Valério Arcary diz ver no PSOL uma aposta comum na construção de um partido de esquerda sério, de gente que não quer repetir a tragédia do PT na construção de um instrumento útil à classe trabalhadora. O 6.o Congresso Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), realizado no primeiro fim de semana de dezembro, aprovou por unanimidade a entrada nas suas fileiras do MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista). A adesão do MAIS ao PSOL significa um reforço importante do partido, não só pela soma dos seus 800 militantes, como também pela experiência política de décadas de alguns dos seus dirigentes e da inserção nos movimentos sociais de grande parte da sua militância.

Recordemos que o MAIS nasceu em julho de 2016, no final de uma intensa batalha política travada dentro do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). A rutura ocorreu de forma negociada e a sua militância representou cerca de 40% daquele partido. Inicialmente, o MAIS manteve a sua adesão à Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), mas viria a afastar-se daquela corrente internacional em fevereiro deste ano.

A decisão de pedir a entrada no PSOL fora anunciada publicamente em finais de julho do ano passado, sendo uma das principais conclusões do primeiro congresso do MAIS. A resolução então aprovada explicava-a nestes termos: «O MAIS se somará ao PSOL para recuperar as ruas e o trabalho de base nas fábricas, periferias e locais de estudo enquanto espaços centrais de atuação política».

Afirmando entrar no PSOL com as suas próprias ideias, o MAIS afirmava: «Queremos atuar ombro a ombro com todas e todos do PSOL, para que, em cada embate da luta de classes, possamos elaborar conjuntamente a melhor política para a libertação dos trabalhadores e trabalhadoras, negras e negros, LGBTs, juventude, indígenas, sem-terra, sem-teto e quilombolas». A resolução sublinhava: «Não somos a única organização marxista no Brasil. É momento de estar mais perto do que longe, para que as divergências entre a esquerda socialista não ameacem a necessária unidade. Construir sínteses e convergências, sem prejuízo ao debate das diferenças. Esse é o desafio».

Numa intervenção no 6.º congresso do PSOL, no dia 2 de dezembro, o historiador Valério Arcary agradeceu em nome do MAIS o «enorme respeito» com que a sua corrente foi acolhida pelos dirigentes do PSOL, sublinhando que via no partido «uma aposta comum, de todos, na construção de um partido de esquerda sério, de gente que quer aprender as lições da História, que não quer repetir a tragédia do PT e que quer aprender a conviver com as diferenças». Para o dirigente do MAIS, «o respeito mútuo é vital para nós termos um patamar de confiança que permita construir juntos um instrumento útil à classe trabalhadora».

Reconhecendo que a sua corrente chegou atrasada ao PSOL, Valério Arcary garantiu que a militância do MAIS traz consigo «a mesma disposição revolucionária que nos fez unir à luta socialista há muito tempo atrás». Para o historiador, o PSOL «passou uma prova na História», que não foi menor, ao ter a coragem de ser oposição a Dilma no primeiro ano de seu mandato, «mas chegou o impeachment e soube se colocar contra ele».


Lê também:

6.º Congresso Nacional aprova entrada do MAIS no PSOL
Intervenção de Valério Arcary no 6.º Congresso do PSOL
Texto integral da resolução aprovada
Brasil: PSOL fortalecido com a adesão do MAIS


Glossário:

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) foi fundado em julho de 2004, após a expulsão do Partido dos Trabalhadores de um grupo de parlamentares, conhecido como “os radicais do PT”, que votaram contra a reforma da Previdência Social implantada pelo governo de Lula. A senadora Heloísa Helena, a deputada Luciana Genro e os deputados Babá e João Fontes, aos quais se juntaram inúmerxs ativistas sociais e intelectuais, lançaram-se então na construção de uma alternativa à esquerda que retire as lições dos fracassos da governação Lula-Dilma.

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) foi fundado em 1993 pelos membros da Convergência Socialista (CS), corrente interna do Partido dos Trabalhadores (PT), aos quais se juntaram outros grupos menores. A CS fora expulsa do PT em 1992, por defender que o partido impulsionasse a campanha “Fora Collor” (Fernando Collor de Mello, o presidente da República que derrotara Lula nas eleições de 1989). Pouco depois, o PT viria a participar dessa campanha e Collor foi afastado da Presidência. O PSTU pertence à Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), uma organização trotskista internacional.

O Partido dos Trabalhadores (PT) foi fundado em 1980 por um grupo de sindicalistas líderes de greves como as dos metalúrgicos da região do ABC de São Paulo que aceleraram a queda da ditadura militar implantada no Brasil em 1964. Apresentado no início sob o lema eleitoral “trabalhador vota em trabalhador” e propondo-se formar um governo de trabalhadores, o partido chegou ao governo federal em 2003, depois da vitória eleitoral do seu principal dirigente, o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. No poder, porém, Lula aplicou uma política de benesses ao capital financeiro e aliou-se a anteriores inimigos (como Collor e Sarney) sob o pretexto de manter a sustentabilidade do seu governo. Aproveitando uma conjuntura internacional favorável, aplicou também algumas políticas compensatórias dirigidas às pessoas mais pobres, como o Bolsa Família, que lhe granjearam forte apoio. Reeleito em 2006, Lula foi sucedido por Dilma Rousseff, também do PT, em 2011. Mas a conjuntura internacional mudara e Dilma, reeleita em 2014, anunciou medidas de austeridade e de ajuste fiscal que faziam parte do programa do seu adversário derrotado, Aécio Neves. Ainda assim, foi derrubada por um golpe parlamentar articulado pela direita que não confiava que o PT aplicasse as contrarreformas ao ritmo que ela exigia.

O Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (MAIS) foi fundado em julho de 2016, no final de uma intensa batalha política travada dentro do PSTU, quando surgiram grandes divergências sobre o balanço do processo político que levou à queda do Muro de Berlim e o derrube das ditaduras burocráticas que governavam a URSS e os chamados Países do Leste. A outra grande diferença política deu-se em torno da atitude a adotar diante da campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff. A rutura ocorreu de forma negociada e a militância do MAIS representou cerca de 40% do PSTU. Inicialmente, o MAIS manteve a sua adesão à Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), mas viria a afastar-se em fevereiro deste ano.