Antropoceno, capitalismo fóssil, capitalismo verde, ecossocialismo: Onde está a saída?

Michael Löwy faz a recensão dos livros Facing the Anthropocene. Fossil Capitalism and the Crisis of the Earth System, de Ian Angus e Green Capitalism. The God that Failed, de Richard Smith.


As publicações de ecologia crítica encontram nos Estados Unidos um público crescente, como testemunha o êxito do último livro de Naomi Klein (This Changes Everything). No interior deste campo desenvolve-se também, cada vez mais, uma reflexão ecossocialista de inspiração marxista, à qual pertencem os dois autores aqui tratados.

Uma das promotoras ativas desta corrente é a Monthly Review e a sua editora. É ela que publica o importante e muito atual livro sobre o Antropoceno de Ian Angus, ecossocialista canadiano e editor da revista online Climate and Capitalism, um livro saudado com entusiamo por cientistas como Jan Zalasiewwicz ou Will Stefren, que são dos principais promotores dos trabalhos sobre o Antropoceno, por investigadores marxistas como Mike Davis e Bellamy Foster, ou por ecologistas de esquerda como Derek Wall, dos Verdes ingleses.

A partir dos trabalhos do químico Paul Crutzen – Prémio Nobel pelas suas descobertas sobre a destruição da camada de ozono -, do geofísico Will Steffen e outros, a conclusão de que entramos numa nova era geológica, distinta do Holoceno, começa a ser amplamente admitida. O termo “Antropoceno” é o mais utilizado para designar esta nova época, que se caracteriza por profundas alterações no sistema-terra, resultante da atividade humana. A maior parte dos especialistas estão de acordo em datar o começo do Antropoceno em meados do século XX, quando se desencadeou uma “Grande Aceleração” de mudanças destrutivas: ¾ das emissões de CO2 tiveram lugar a partir de 1950. O termo “Antropos” não significa que todos os humanos são igualmente responsáveis por esta mudança dramática e inquietante: os trabalhos dos investigadores mostram claramente a responsabilidade esmagadora dos países mais ricos, os países da OCDE.

Conhecem-se também as consequências destas transformações, em particular as alterações climáticas: subida da temperatura, multiplicação de fenómenos climáticos extremos, subida das águas do mar, submergindo grandes cidades costeiras da civilização humana, etc. Estas mudanças não são graduais e lineares, mas podem ser abruptas e catastróficas. Esta parte do dossiê parece-me pouco desenvolvida: Ian Angus menciona estes perigos, mas não discute, de uma forma mais concreta e detalhada, as ameaças à sobrevivência da vida no planeta…

O que fazem os poderes constituídos, os governos do planeta, em particular os dos países ricos principais responsáveis pela crise? Angus cita o feroz comentário de James Hansen, o climatólogo da NASA norte-americana, sobre a COP21 de Paris (2015): “a fraud, fake… just bullshit” (difícil de traduzir…). Com efeito, embora todos os países presentes na Conferência de Paris sobre as Alterações Climáticas mantenham as suas promessas – muito pouco provável, já que os acordos de Paris não preveem nenhuma sanção – não podemos evitar uma subida da temperatura do planeta superior a 2º C: o limite oficialmente admitido que não se poderá em nenhum caso ultrapassar se queremos evitar um processo irreversível e incontrolável de aquecimento global. Na verdade, o verdadeiro limite seria 1,5º C, como o admitiram os participantes da COP21. Conclusão de Naomi Klein: ainda há tempo para evitar um aquecimento catastrófico, mas não no quadro das atuais regras do capitalismo.

Facing the Anthropocene.  “Fossil Capitalism and the Crisis of the Earth System”, de Ian Angus.

Ian Angus partilha deste diagnóstico – com matizes sobre “atuais” – e dedica a segunda parte do seu livro à raiz do problema: o capitalismo fóssil. Se as grandes empresas e os governos continuam a lançar carvão para as caldeiras do comboio louco (run-away train) do crescimento, não é por culpa da “natureza humana”, mas porque é um imperativo essencial do próprio sistema capitalista. O capitalismo não pode existir sem crescimento, expansão, acumulação de lucros e, portanto, destruição ecológica. Ora, este crescimento funda-se, desde há quase dois séculos, nas energias fósseis, que concentram hoje mais investimento do que qualquer outro ramo da produção – sem falar das generosas subvenções concedidas pelos governos. Só as reservas de petróleo representam mais de 50 mil milhões de dólares: não podemos contar com a boa-vontade da Exxon e companhia para renunciar a este maná. Sem falar noutros ramos da produção – automóveis, aviões, plásticos, produtos químicos, estradas, etc., etc. – estreitamente associados ao capitalismo fóssil. O 1% que controla tanta riqueza como os restantes 99% da humanidade concentra nas suas mãos tanto o poder económico como o poder político; esta é a razão do fracasso retumbante das “conferências internacionais” sobre as alterações climáticas, que acabam sempre, segundo o termo de James Hansen, em “bullshit”.

Qual é, pois, a alternativa? Angus refere que não podemos voltar ao Holoceno. O Antropoceno já começou, e isto não pode inverter-se. As alterações climáticas já em curso vão durar milhares de anos. A urgência é de abrandar a marcha suicida promovida pelo sistema, mediante um amplo movimento que associe todas as pessoas que estão dispostas a somar-se ao combate contra as alterações globais e o capitalismo fóssil – esperando poder, no futuro, substituir o capitalismo por uma sociedade solidária, o ecossocialismo. A Conferência dos Povos contra as Alterações Climáticas e em Defesa da Mãe-Terra de Cochabamba, Bolívia, em 2010, que reuniu dezenas de milhares de indígenas, camponeses, sindicalistas, trabalhadores é um exemplo concreto deste movimento.

O que se passa do lado dos partidários do socialismo? Ian Angus constata que a URSS era um pesadelo ecológico, particularmente desde que Estaline liquidou os ecologistas soviéticos (esta secção também teria merecido um desenvolvimento mais amplo). Alguns socialistas criticam o que chamam de “catastrofismo” dos ecologistas e outros pensam que a ecologia é uma distração face à “verdadeira” luta de classes. Os ecossocialistas não são um grupo homogéneo, mas partilham a convicção de que uma revolução socialista efetiva só pode ser ecológica e vice-versa. Sabem também que é preciso ganhar tempo: a luta para retardar o desastre, obtendo vitórias parciais contra a destruição capitalista, e a luta por um futuro ecossocialista fazem parte de um mesmo processo integrado.

Que hipóteses tem uma luta destas? Não há nenhuma garantia, constata Angus sobriamente. O marxismo não é um determinismo. Marx e Engels escreveram no Manifesto Comunista que a luta de classes pode conduzir a uma transformação revolucionária da sociedade ou à “ruína comum das classes em luta”. No Antropoceno, esta “ruína comum” – o fim da civilização humana – é uma possibilidade real. A revolução ecossocialista não é de todo inevitável. Temos de ser capazes de lançar a ponte sobre a brecha existente entre a raiva espontânea de milhões de pessoas e o início de uma transformação ecossocialista. Conclusão do autor deste livro estimulante e admiravelmente documentado: se lutarmos, podemos perder; se não lutarmos, seguramente perderemos.

“Green Capitalism. The God that Failed”, de Richard Smith.

Richard Smith não discute o Antropoceno, exceto numa frase, que resume o seu propósito: Entramos no “Antropoceno”, isto é, «a Natureza já não manda na Terra. Somos nós quem manda. É hora de começar a tomar decisões conscientes e coletivas».

O seu livro é muito mais que uma crítica do “capitalismo verde”, como o seu título o indica. É uma recompilação de ensaios, numa ordem um pouco improvisada e com algumas repetições, mas o conjunto é de uma admirável coerência e rigor. Poderíamos começar pelo diagnóstico: em maio de 2013, o observatório Mouna Loa no Havai constatou que a concentração de CO2 na atmosfera ultrapassa os 400ppm. Não alcançava tal nível desde o Pleitosceno, há três milhões de anos, quando a temperatura era 3º ou 4º C mais alta do que hoje; o Ártico não tinha gelo e o nível do mar era 40 metros mais alto do que hoje. Os lugares a que hoje chamamos Nova Iorque, Londres, Xangai estavam debaixo do mar… Os climatólogos não cessam de multiplicar as advertências: se não paramos no curto prazo as emissões de gás com efeito de estufa, caminharemos para um aquecimento global incontrolável e irreversível, que terá como resultado o colapso da nossa civilização e, provavelmente, a nossa extinção como espécie.

Ora, então, o que se passa? “Business as usual”, as emissões não só não diminuíram nos últimos anos, como não param de aumentar, batendo todos os anos recordes. Continua-se a extrair energias fósseis, e vai-se, inclusivamente, buscá-las mais longe, às profundezas do oceano ou às areias betuminosas. Em suma, o espírito dominante pode ser resumido pela fórmula “depois de mim o dilúvio”.

De quem é a culpa? Tal como Ian Angus, Richard Smith indica claramente o responsável pelo desastre: o sistema capitalista e a sua necessidade imperativa, irreprimível, insaciável de “crescimento”. O crescimento não é uma mania, um capricho, uma ideologia: é a expressão racional das exigências da reprodução capitalista. “Crescer ou morrer” é a lei de sobrevivência na selva do mercado competitivo capitalista. Sem sobreconsumo não há crescimento, e sem crescimento vem a crise, a ruína, o desemprego massivo. Mesmo um economista tão “dissidente” como Paul Krugman acaba por resignar-se ao consumismo: é, escreve, «uma corrida de ratos, mas esses ratos que correm nas suas jaulas, no seu ratódromo, é o que faz com que girem as rodas do comércio».

É simplesmente a lógica do sistema. Daí o fracasso das conferências internacionais, do “capitalismo verde”, das bolsas de direitos de emissão, das taxas ecológicas, etc., etc. Como dizia cinicamente o economista neoliberal ortodoxo Milton Friedman, «as corporações estão nos negócios para fazer dinheiro, não para salvar o mundo». Conclusão de Richard Smith: se queremos salvar o mundo, há que arrancar às corporações o poder sobre a economia. «Ou salvamos o capitalismo, ou nos salvamos a nós mesmos. Não se pode salvar os dois». O capitalismo é uma locomotiva descontrolada, que arrasa continentes inteiros de florestas, que devora oceanos de fauna e flora, que desregula o clima e que avança rapidamente em direção ao abismo: a catástrofe ecológica. Daí a crítica de Smith às ilusões dos economistas ou ecologistas partidários do “capitalismo verde” (numerosos nos Estados Unidos, mas também em França!) – esse “deus que fracassou” – ou de um “decrescimento” que repete as regras do mercado e da propriedade privada (Herman Daly).

Que fazer? Não há solução “técnica” ou no quadro do mercado. É preciso reduzir drasticamente, num curto espaço de tempo, a utilização de energias fósseis, não só para a produção de eletricidade, mas também nos transportes, no aquecimento, na indústria, na agricultura produtivista, etc., etc. E como a Exxon, a British Petroleum, a General Motors, etc. não têm nenhuma vontade de cometer suicídio económico – e nenhum dos governos capitalistas tem intenção de os obrigar -, é preciso que a própria sociedade tome nas suas mãos os meios de produção e distribuição e reorganize todo o sistema produtivo – garantindo um emprego digno a todos os trabalhadores cujas empresas serão condenadas ao desaparecimento ou a reduções drásticas.

Não é suficiente substituir as energias fósseis pelas renováveis. É necessário reduzir substancialmente a produção e o consumo (“decrescimento”). Segundo Richard Smith, ¾ dos bens hoje produzidos são inúteis, prejudiciais ou marcados pela obsolescência programada. Se se deixar de produzir para acumular lucro, mas para satisfazer as necessidades, pode-se fabricar produtos úteis, duráveis, reparáveis, adaptáveis, que podem ser utilizados durante dezenas de anos – como o meu velho VW 1962, que ainda funciona, acrescenta… Dar-se-á prioridade às necessidades sociais e ecológicas que hoje são negligenciadas ou sabotadas: a saúde, a educação, a habitação (com normas ecológicas), a alimentação sã e orgânica. Poder-se-á trabalhar muito menos horas e ter mais férias.

Mas isto implica romper radicalmente com o sistema capitalista, retirar aos proprietários privados o controlo da economia e planificá-la de forma democrática: o ecossocialismo. Comissões do plano poderão ser eleitas a nível local, regional, nacional, continental, etc. e, mais tarde ou mais cedo, internacional. E as grandes decisões seriam tomadas pela própria população: carro ou transportes públicos? Nuclear ou abandono do nuclear? E assim sucessivamente. Trata-se de substituir a “mão invisível” do mercado – que não pode senão perpetuar o business as usual – pela mão visível das decisões democráticas da sociedade. Uma tal planificação democrática situa-se nos antípodas da triste caricatura burocrática que foi a “planificação central” – perfeitamente autoritária, quando não totalitária – da extinta URSS. Trata-se do projeto de uma outra civilização, uma civilização ecossocialista.

A exposição de Richard Smith é perfeitamente coerente. O único reparo que lhe faria é a ausência de mediações. Como passar da dinâmica suicida da civilização capitalista para uma sociedade ecossocialista? É uma questão muito pouco trabalhada no seu livro…

O ponto de partida não pode ser senão as mobilizações atuais, o que Naomi Klein designa como Blockadia: as lutas dos indígenas e dos ecologistas canadianos contras as areias betuminosas, as lutas nos EUA contra os oleodutos (a conduta XXL foi bloqueada), as de França contra o gás de xisto (provisoriamente vitoriosas), as das comunidades indígenas da América Latina contra as multinacionais petrolíferas ou de mineração, etc. Essas lutas – locais, regionais ou nacionais – são essenciais sob vários pontos de vista: a) permitem retardar o caminho do abismo; b) revelam o valor da luta coletiva; c) favorecem as tomadas de consciência antissistémica (anticapitalista).

Felizmente, no último parágrafo do seu livro, Richard Smith interessa-se por esta dimensão concreta do combate pelo ecossocialismo, saudando a existência, «por todo o mundo, de lutas contra a destruição da natureza, contra as barragens, contra a poluição, contra o sobredesenvolvimento, contra a indústria química e as centrais térmicas, contra a extração predatória dos recursos, contra a imposição dos OGM, contra a privatização de terras comunais, da água e dos serviços públicos, contra o desemprego capitalista e a precariedade (…). Hoje temos uma vaga crescente de “despertar” de massas global – quase um levantamento global massivo. Esta insurreição global está apenas no seu começo, não tem a certeza do seu futuro, mas os seus instintos democráticos radicais são, creio, a última e a melhor esperança da humanidade».


Tradução de Andrea Peniche para Rede Anticapitalista. Texto original aqui.